sexta-feira, 22 de maio de 2015

Vida

A vida é apenas isto: um encadeamento de acasos bons e maus, encadeamento sem lógica, nem razão; é preciso a gente olhá-la de frente com coragem e pensar, mas sem desfalecimentos, que a nossa hora há-de vir, que a gente há-de ter um dia em que há-de poder dormir, e não ouvir, não ver, não compreender nada.

Florbela Espanca

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Princesa Desalento

Minh'alma é a Princesa Desalento, 
Como um Poeta lhe chamou, um dia. 
É magoada, e pálida, e sombria, 
Como soluços trágicos do vento! 

É fágil como o sonho dum momento; 
Soturna como preces de agonia, 
Vive do riso duma boca fria: 
Minh'alma é a Princesa Desalento... 

Altas horas da noite ela vagueia... 
E ao luar suavíssimo, que anseia, 
Põe-se a falar de tanta coisa morta! 

O luar ouve minh'alma, ajoelhado, 
E vai traçar, fantástico e gelado, 
A sombra duma cruz à tua porta... 

Florbela Espanca

terça-feira, 12 de maio de 2015

Alma

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!

Florbela Espanca

terça-feira, 5 de maio de 2015

Falo de Ti às Pedras das Estradas


Falo de ti às pedras das estradas, 
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;


Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;


Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!


E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Homem

Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. O homem - não o homem que Deus fez, mas o que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no paraíso terreal afeiçoará à imagem da divindade -, o homem assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.

Almeida Garrett

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Os Cinco Sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste,
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Citação - Mulher

"Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja e a mulher que se ama. A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração. Certas formas, certo ar voluptuoso, criam o desejo. O que produz o amor, não se sabe; é tudo isto às vezes; é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar."

Almeida - Garrett

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Quando Eu Sonhava

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia, 

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia
 

Que nunca pude alcançar. 

Agora, que estou desperto,

Agora a vejo fixar... 

Para quê? - Quando era vaga,

Uma ideia, um pensamento, 

Um raio de estrela incerto 

No imenso firmamento,

Uma quimera, um vão sonho, 

Eu sonhava - mas vivia: 

Prazer não sabia o que era, 

Mas dor, não a conhecia ...

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quarta-feira, 25 de março de 2015

O amor doí...

É por ti que o meu coração balança
No teu peito que a minha alma descansa.


Todos os dias quando eu te vejo
Anseio por te dar um apaixonado beijo.


Amar-te como um louco faz-me sofrer
Mas é nos teus braços que eu quero morrer. 

BMSS

sábado, 14 de março de 2015

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

sábado, 7 de março de 2015

Presságio

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa

quarta-feira, 4 de março de 2015

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de março de 2015

O guardador de rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quem diz que Amor é falso ou enganoso

Quem diz que Amor é falso ou enganoso, 
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido, 
Sem falta lhe terá bem merecido 
Que lhe seja cruel ou rigoroso. 

Amor é brando, é doce, e é piedoso. 
Quem o contrário diz não seja crido; 
Seja por cego e apaixonado tido, 
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso. 

Se males faz Amor em mim se vêem; 
Em mim mostrando todo o seu rigor, 
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor; 
Todos os seus males são um bem, 
Que eu por todo outro bem não trocaria. 

Luís de Camões 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Alma Minha Gentil, que te Partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver



Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 


É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 




É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Verdes são os campos

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Já chegou o Carnaval!



Adoro a festividade do Carnaval
Celebrada no Brasil e em Portugal
É uma festa de magia 
Com trajes coloridos de fantasia
Inclui muito humor e alegria!

BMSS

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Onde anda o "Amor"?

Dizem que no amor não existe fronteiras.
Mas até o encontrar temos de ultrapassar  
Todas as barreiras! 

Há muitos séculos que andamos 
A procura do amor verdadeiro.
Muitos pensavam que já o tinham encontrado 
Mas depressa descobrem que não é sincero.




Mas cuidado não confunda amor com carinho.
Veja bem se é a sua "cara metade" 
E não um amiguinho!

O conselho que posso dar 
É terem calma e paciência.
Normalmente costuma resultar 
Esta velha ciência!

BMSS

sábado, 17 de janeiro de 2015

Relembrar os melhores momentos do Festival "Bons Sons" 2014 ....



... que vão voltar a repetir-se este ano! 
Não esquecer de 13 à 16 de Agosto de 2015, vem "Viver à Aldeia" em Cem-Soldos!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Vem viver a Aldeia! "- Festival dos Bons Sons 2015


O público já não terá de esperar 2 anos para assistir à 6ª edição do BONS SONS. O Festival de Música Portuguesa regressa em 2015 para assumir uma periodicidade anual, depois de um ciclo de 5 edições bienais.

A qualidade e diversidade da produção musical nacional, a boa receptividade do público, músicos e críticos, aliados à vontade de uma aldeia que acredita e porque acredita, faz, motivaram a entrada neste novo ciclo que traz muita satisfação, mas também muita responsabilidade à organização.

A data está marcada! E aldeia de Cem Soldos está pronta para, nos dias 13, 14, 15 e 16 de Agosto, voltar a ser o palco privilegiado da Música Portuguesa.

domingo, 11 de janeiro de 2015

1,5 milhões de pessoas nas ruas de Paris na marcha contra o terrorismo.




Um milhão e meio de pessoas nas ruas de Paris, mais um milhão de pessoas por todo o país, num total de 2,5 milhões de pessoas que saíram este domingo às ruas em homenagem aos que perderam a vida no ataque terrorista ao seminário francês Charlie Hebdo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Para todas as pessoas que morreram em nome da liberdade...vítimas de actos terroristas.



Deus é compaixão...
Abraça o teu irmão.
Deus é liberdade...
Aceita à verdade.
Deus é amor...
Acalma na dor.

Descansa na Paz do senhor.

BMSS

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Eusébio ganha uma avenida em Lisboa um ano após a sua morte.





A inauguração da Avenida Eusébio da Silva Ferreira (um troço da Segunda Circular junto ao Estádio da Luz) assinala hoje o primeiro aniversário da morte do Pantera Negra.